Não quero rimar

Quero falar e ser ouvido
Quero escrever e ser lido
Quero viver e amar
Quero alguém para passear

Quero sonhar e realizar
Quero viver em um lar
Quero sorrir e também chorar
Quero odiar e me apaixonar.

Quero viver uma nova vida
Quero um caminho não só de ida
Quero acabar com essa lida
Quero ter outra medida.

Quero ser outro
Quero um novo porto
Sentir um novo gosto
Assumir um novo posto.

Não quero rimar
Quero apenas falar
desabafar
fraquejar
Chorar
Sem precisar me explicar.

A. J. Pereira

O destino e suas peças

Sentados frente a frente, ficamos mudos. Ela não conseguia me olhar nos olhos, nem tampouco falava sem parar como costumava ser pelo telefone, ficamos ali um olhando para o outro como dois estranhos. Não deixávamos de ser, apesar dos dias de conversa nunca havíamos nos encontrado pessoalmente, mas eu não imaginava um primeiro encontro tão silencioso. As conversas começavam, mas logo terminavam e a tentativa seguinte era sempre mais frustrante do que a anterior.
— Acho que conversamos tanto por telefone, que ficamos sem ter o que falar. — ela disse com um sorrisinho sem graça.
—Também acho, mas a gente pode se entender mesmo sem palavras. — respondi, sem notar o dublo sentido da frase, pelo menos até ela começar a sorrir.

O vinho que precedeu o jantar nos ajudou um pouco com o silêncio, duas ou três taças nos fizeram deixar a timidez de lado, logo, já conversávamos como antes. Não era comum para mim marcar encontros pela internet, mas os tempos mudam e temos que ir nos adaptando ou pelo menos algum amigo meu deve ter falado isso. Terminamos o jantar e eu ofereci uma carona para ela, que aceitou prontamente.

No caminho para a casa dela, paramos duas ruas antes para conversamos um pouco mais. Não que essa conversa tenha durado muito, o vinho que levou embora a timidez deixou em seu lugar um incontrolável desejo, não demorou muito para esse desejo falar mais alto que qualquer assunto que tivéssemos. Entre os beijos e abraços, as mãos dela cada vez mais ousadas passeavam por baixo da minha roupa e com bastante agilidade soltou meu cinto e meu zíper logo estava aberto. Apesar do desejo, meu cavalheirismo insistia em perguntar:
— Você tem certeza? Quer aqui no carro e no primeiro encontro? — Ela não respondeu, já estava ocupada com outra coisa, que significou mais que um sim.

Os encontros foram ficando mais constantes, eu marcava as datas sempre em horários em que minha mulher estava trabalhando. Nosso casamento estava frio, já não tínhamos mais desejos um pelo outo, a rotina da casa e seus trabalhos nos distanciaram, sem falar nas crianças cada vez mais bagunceiras e que não nos dava um minuto a sós. Na internet encontrei essa moça e as conversas que seguiram ascendeu em mim um desejo que eu já não sentia há muito tempo. Eu me sentia como um adolescente fazendo algo escondido dos pais, mas o que estava em jogo nessa brincadeira era minha família, mas de algum modo também não conseguia abandonar os encontros com a Lúcia.

Já não ficávamos dentro do carro, agora já tínhamos intimidade o suficiente para irmos a um motel. Já não tinha jantar também, as conversas ficaram mais curtas e objetivas e para ambos estava claro que nosso lance era puramente sexual. Decidi abrir o jogo, contei que eu era casado e para minha surpresa ela respondeu:
— Eu sei, acho que você nem notou, mas no nosso primeiro encontro você estava usando a sua aliança. Por sinal raramente você se lembra de tirá-la.
— E isso não te incomodou? — perguntei surpreso.
— Não, muito pelo contrário. Isso foi o que me deu a segurança de estar com você, eu também sou casada. — Não consegui esconder minha surpresa, mas no fundo confesso que senti um certo alívio, nós dois éramos casados, ambos entendíamos os motivos um do outo.

Depois de revelarmos nossos segredos, nosso envolvimento foi ficando mais profundo. O que antes era puramente instintivo e sexual, foi se tornando algo a mais, logo conversávamos sobre uma vida fora dos laços matrimoniais. Não demorou para nos darmos conta do que estava acontecendo, estávamos apaixonados um pelo outo e já fazíamos planos para uma vida juntos após o possível divórcio.

Começamos a planejar uma fuga, seria mais fácil para ambos, fugir não necessitaria explicações, nem olhos nos olhos e nem possíveis remorsos. Compramos nossas passagens, estávamos prontos para realizar essa loucura, tudo em nome do amor, mas as vezes o destino nos prega peças que não conseguimos entender. Três dias antes da data marcada para a minha fuga, minha esposa me preparou uma surpresa, mandou as crianças para a casa da vó, preparou o jantar que eu adorava, tudo nos mínimos e mais caprichosos detalhes.

Quando cheguei do trabalho e me deparei com aquilo tudo para mim, não pude acreditar. Os olhos dela brilhavam, estava vestida como em nosso primeiro encontro que havia sido a tantos anos atrás, que eu nem imaginava que ela ainda guardava aquela roupa. Jantamos, conversamos como se não nos víssemos à anos e quando tomamos a última taça do meu vinho preferido, nós fomos para o quarto. No quarto ela se entregou sem nenhum pudor, um amor que achei que fosse impossível de fazer com ela, havia anos que não nos amávamos assim, um amor completo do jeito que todo homem sonha.

Nos dias que se seguiram não me lembrava da Lúcia até ela ligar confirmando a hora do nosso encontro no aeroporto. Num impulso, tomado pela surpresa não consegui pensar direito e fiz minha mala e na hora marcada eu estava no aeroporto. Sentados esperando a hora do voo, eu só pensava, “Do que eu estava fugindo?” Em casa eu tinha uma esposa que me amava, duas crianças lindas, mesmo que o sexo não fosse diário, minha esposa mesmo cansada conseguia tirar um dia para satisfazer todas as minhas vontades. Será que aquela mulher que dedicou a vida a cuidar de todos em casa e ainda trabalhar para me ajudar merecia algo assim?

Quanto mais eu pensava, menos aquela fuga tinha sentido. Eu estava trocando uma vida, por alguns momentos de prazer, mas talvez eu estivesse enganado, quem sabe a Lúcia estava disposta a construir uma família comigo, mas porque eu construiria outra família quando eu já tinha uma?
— Lúcia, agora nós seremos livres para construir uma família juntos. Está feliz?
— Meu amor, como estamos começando uma nova faze acho que é bom começar sendo sincera com você. Eu não quero família, nós já estamos fugindo disso, pra que cometer os mesmos erros de novo? Vamos viver nossa paixão, vamos transar, sermos felizes só nós dois. As crianças que tive já estragaram meu corpo o suficiente. — ela respondeu. Mesmo sorrindo para ela em resposta aquilo me perturbou ainda mais, minha esposa seria incapaz de abandonar os filhos e muito menos reclamar de qualquer marca que eles deixaram em seu corpo, pelo contrário, lembrava de cada uma com um olhar nostálgico e dizia com orgulho “Essa marquinha apareceu quando eu estava com três meses, grávida do Rafael. Você lembra?”

O peso da verdade parecia me esmagar, eu não podia abandonar aquela mulher, ela era a mulher da minha vida. Me levantei de repente e falei:
— Eu não posso fugir com você, Lúcia.
— Como assim? Do que você está falando, meu amor? — ela perguntou surpresa.
— As pessoas fogem de vidas ruins, de lugares impróprios. As pessoas fogem em busca de felicidade, Lúcia. Eu não tenho motivos para fugir, eu já tenho a felicidade em casa, só não tinha me dado conta ainda.
— Eu não acredito que você está fazendo isso comigo! SEU COVARDE! Vai voltar para aquela vidinha de papai e mamãe onde nem transar vocês conseguem?
— Vou! Essa vidinha é a que sempre sonhei e demorei anos para construir ela, só não estava sabendo dar valor. Isso acontece, a gente deseja tanto uma coisa e quando consegue não sabe aproveitar.
— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ VAI FAZER ISSO COMIGO! — gritou ela, se levantando de uma vez.
— Eu sinto muito, Lúcia. Volta pra casa, vai ser melhor. — Não esperei resposta, virei as costas e fui embora, fingindo não ouvir enquanto ela gritava meu nome seguido de insultos.

Quando cheguei em casa, senti vontade de chorar tamanha alegria que senti. Quando entrei minha esposa segurava nas mãos a carta que eu havia deixado, fiquei em choque, tinha me esquecido que tinha escrito uma carta. Ela me viu entrar e não falou nada, me sentei em frente a ela, mas ao abrir a boca nenhuma palavra saiu, mas as lágrimas derramavam sem parar e para piorar minha agonia ela não dizia nada, apenas me olhava. Quando finalmente consegui conter as lágrimas eu perguntei:
— Você não vai falar nada? — Ela me olhou, me entregou a carta e disse:
— Eu escolhi me casar com você, construímos uma família juntos e você escolheu jogar tudo fora. Li tudo que você escreveu, mas nem por um minuto acreditei que você teria mesmo a coragem de fugir. Não quero saber quem ela é, nem qual foram os seus motivos, não quero ouvir você me pedir perdão.
— Então o que eu faço para consertar isso? — perguntei desesperado.
— Jogue um copo no chão e depois tente colar de novo os pedaços. Ele pode adquirir o mesmo formato, o mesmo tamanho, mas as marcas não vão sumir jamais e um ou outro pedacinho vai ficar faltando. Você quebrou nosso relacionamento, cabe a você tentar remendar, mas essas marcas vão ficar para sempre. Agora vai desfazer essa mala e se livrar dessa carta, as crianças não merecem essa decepção.

A. J. Pereira

Inocente amor

Éramos inocentes demais para notar a maldade dos olhares que nos cercavam. As insinuações dos adultos a nossa volta sempre passaram despercebidas, nos apenas gostávamos um do outro e não entendíamos o motivo do desconforto que essa pequena afirmação gerava ao nosso redor. A medida em que crescíamos o desejo ia despertando, como é natural em todos os adolescentes e para nós não foi diferente. Cada vez que estávamos juntos se tornava mais claro esse desejo, ambos sentíamos e percebíamos no outro, mas nenhum tomava iniciativa.

Um pouquinho mais velhos, jogando videogames no final da tarde como era de costume, aproveitamos o momento de descontração para termos conversas mais íntimas. Conversamos sobre tudo, de quem gostávamos, quem beijaríamos e quantas pessoas já tínhamos beijado, obviamente não tínhamos beijado ninguém ainda, mas mentimos um para o outo e mesmo ambos sabendo que era mentira, fingíamos acreditar. E ao final de toda a conversa e dos jogos, percebemos que estávamos sozinhos, nos encaramos, sorrimos e com um acordo mudo nos beijamos. Foi um beijo desajeitado, sem falar no constrangimento depois, mas mesmo assim era visível que tinha sido incrível para nós dois.

Havia se tornado rotina os beijos, rotina que era interrompida somente quando notávamos que tinha alguém por perto e nesses dias eu voltava para casa com uma sensação de ter esquecido algo. Os beijos foram melhorando e um logo se transformava em dois, três, quatro, cinco e cada vez mais longos, logo o videogame ficava ligado apenas para disfarçar caso alguém entrasse no quarto. As mãos antes estáticas, agora passeavam incertas no corpo um do outro o que às vezes provocava sorrisos, tudo muito natural e cada dia era uma nova descoberta.

De tão natural para nós, acabamos ficando descuidados, já estávamos esquecendo de conferir se a porta estava mesmo fechada e se realmente estávamos sozinhos. Em um desses descuidos fomos pegos, a princípio não pareceu ter importância, ganhamos um olhar surpreso, assustado e fui convidado a ir embora. No outro dia não nos encontramos e com algumas desculpas inventadas por ele, acabamos ficando três dias sem nos ver. Para minha surpresa no quarto dia o encontrei novamente, me pediu desculpa pelos dias em que não nos vimos e me convidou para ir jogar em sua casa. Mais uma vez o videogame ficou ligado por ficar, mas dessa vez estávamos mesmo sozinhos e nos certificamos de trancar a porta e toda a situação favorável nos permitiu esquentar o clima um pouco mais, e mais, e mais. Naquele dia voltei para casa tendo a certeza de estar apaixonado.

Fui acordado no outro dia cedo com uma gritaria, meus pais estavam brigando, coisa totalmente incomum entre eles. Me levantei e fui saber o que estava acontecendo, quando me viram eles pararam, meu pai me encarou por alguns minutos, virou as costas e saiu, minha mãe me pediu para esperar e foi atrás dele. Eu tratei de tomar meu café da manhã e me aprontar para ir à escola, apesar do começo de dia ruim, eu tinha motivos para estar feliz. Quando estava saindo, meus pais me pararam na porta, com olhar preocupado minha mãe falou:
— Hoje você não vai à escola, nós precisamos conversar.
— Conversar sobre o quê? Aconteceu alguma coisa?— perguntei preocupado, quem me respondeu foi o meu pai:
— Aconteceu sim, você sabe muito bem o que foi! O pai do Ryan ligou aqui, ele contou o que vocês dois andam fazendo! Agora, me responde uma coisa: você acha isso certo?— Eu fiquei em choque, não sabia o que responder, meu susto foi tão grande que não consegui nem ao menos inventar uma mentira. Fiquei mudo!
— A partir de hoje você está proibido de falar com esse menino e não se preocupe com a aula que você perdeu hoje, pois amanhã mesmo estaremos providenciando sua transferência, você vai para outra escola.— disse meu pai.
— Mas… porquê? O que eu fiz de errado? Não estou entendendo. Mãe?— perguntei sem realmente entender o motivo daquilo tudo. Minha mãe não respondeu, ela abaixou a cabeça e começou a chorar.
— Você acha que é certo você e esse menino ficarem se… se… se esfregando? EU NÃO CRIEI FILHO PARA ISSO! — gritou meu pai. Eu fiquei sem reação, estava com vergonha, estava com medo, meu pai nunca havia gritado comigo.

Depois de me mandarem voltar para o quarto e tomarem meu celular eu só conseguia pensar no Ryan, o que será que os pais dele falaram? Será que tiveram a mesma reação que os meus? Eu não tinha como ligar, então esperei chegar à tarde e saí escondido para tentar conversar com ele na saída da escola, mas não o encontrei. Fui até a casa dele, mas não podia chamar, fiquei esperando para ver se ele saia no quintal e depois de alguns minutos de espera ele finalmente saiu. Levei um susto quando o vi, estava com um braço enfaixado, o lábio cortado e o olho roxo. Quando ele me viu balançou a cabeça negativamente e eu entendi que não dava pra gente conversar.

Depois de algumas semanas sem meu celular e sem poder falar com o Ryan, eu ainda não sabia o que havia acontecido com ele. Tentei ligar algumas vezes do telefone fixo, mas ele não atendia o que era estranho, pois ele sabia que era eu. Um dia de tarde resolvi ir na casa dele, quando cheguei na rua ele estava sentado na calçada com uns amigos fiquei feliz, pois assim seria mais fácil conversar com ele, já que eu não poderia chamá-lo se ele estivesse dentro de casa. Me aproximei e quando falei oi, ele fechou a cara como se não me conhecesse e de maneira grossa respondeu:
— O que você quer?
— Eu queria saber como você está? O que aconteceu? Você estava machucado.— perguntei preocupado, os amigos que estavam com ele começaram a rir e um deles perguntou:
— Esse não é o moleque veadinho que saiu da nossa escola? Não sabia que vocês eram amigos, Ryan.— e em seguida começaram a sorrir muito.
— Não somos! — o Ryan respondeu.
— Como assim? Nós somos amigos desde criança. — Outra rodada de risadas seguidas de comentários ” O Ryan tem um amigo bixinha.” o que os fazia sorrir mais ainda. O Ryan se levantou me empurrou e falou:
— Já falei que não somos! Agora sai daqui, não gosto de falar com veado. — Eu fiquei parado alguns segundos e de repente a raiva cresceu dentro de mim e o empurrei de volta. Forte demais, ele caiu sentado no chão, o que fez os outros garotos rirem ainda mais. Corri para ajudar ele a se levantar e quando ia pedir desculpa senti a pancada, o Ryan me deu um soco e antes que eu pudesse me recuperar veio mais um, e outro, e mais outro. Logo os amigos o ajudavam e eu no chão apenas tentava me proteger em meio aos chutes e socos. Ouvi a voz do Ryan falando para os amigos:
— Já chega, ele entendeu o recado!— em seguida falou para mim: — Agora vaza daqui! E me esquece.

Me levantei, meu corpo todo doía, sentia gosto de sangue na boca, juntei todas as forças que tinha e corri, corri até estar no portão da minha casa. E quando entrei corri para o quarto e chorei, chorei por não entender o motivo de tanta raiva, o que eu havia feito para ele? Por que ele agiu assim comigo? Quando percebi estava no banheiro, debaixo do chuveiro ainda de roupas e não conseguia parar de chorar.

Na mesa de jantar minha mãe perguntou o que havia acontecido, mas não tive coragem de contar, meu pai me olhava em silêncio, desde que soube do Ryan ele quase não falava mais comigo. Terminei o jantar e voltei para o quarto, alguns minutos depois alguém bateu na porta, fingi estar dormindo, mas não adiantou meu pai entrou mesmo assim. Sentou na minha cama, me olhou por alguns segundos e perguntou:
— Foi o Ryan quem te bateu?— Eu não consegui responder, apenas comecei a chorar e ele me abraçou, de um jeito que fazia muito tempo que ele não me abraçava. E em meio aos meus soluços ele me dizia com voz calma:
— Vai passar, você é forte. Não deixe ninguém te fazer chorar. — Eu apenas acenava com a cabeça, mas não conseguia controlar o choro.
— O senhor está bravo comigo? —perguntei em meio aos soluços.
— Não! Claro que não, aliás eu quero te pedir desculpas por ter gritado com você. Não era verdade o que eu falei, eu te criei para ser exatamente quem você é, eu não mudaria nada em você. — Uma nova rodada de soluços me sacudiu e chorei até pegar no sono.

A. J. Pereira

Coração de mar

Mar de ilusão é o seu louco coração;
me arrasta com suas ondas;
me prende em suas correntes.
Navego no escuro sem nenhuma direção.

Sou levado de um lado para outro
sem saber o porquê, nem pra quê,
mas não desisto da viagem;
me dê tudo de si, só isso tá pouco.

Correntes furiosas, ondas que me lança;
é um amor intenso, talvez turbulento.
Tamanha agitação
é como uma eterna dança.

Depois da tempestade, a calmaria.
Seu amor selvagem, me fez aventureiro;
Seu coração tão imprevisível,
que outro a amaria?

Presente que Iemanjá
trouxe para mim.
Realizou meu desejo de menino,
me deu uma sereia com o coração de mar.

A. J. Pereira

Meninos bebem vinho?

Penso, penso, penso.
Quanto mais eu penso, menos eu sei.
Não sei de mim,
não sei dos outros.
Até sei, mas não sei saber.

No momento estou sozinho.
Minha companhia são as palavras,
mas de que elas me servem?
São palavras simples, vazias, ao vento,
que grande poeta, um poeta sem palavras.

Não sei escrever rebuscado,
Não sei usar palavras bonitas,
uso as que tenho.
Tento falar, mas não consigo;
Tento amar, mas não posso;
Tento viver, mas não sei.

Minhas vivências são fúteis,
meus amores são rasos.
Que poeta pode escrever assim?
Que escritor não sabe usar as palavras?

Poeta…me engano.
Sou apenas um menino,
brincando de escrever.
Menino não, homem,
mas homens não brincam.

Não brincam, mas mentem.
Isso que sou, um mentiroso.
Me finjo de poeta;
Me finjo de escritor;
Me finjo de menino.

Talvez eu devesse viver,
mas isso não me ensinaram.
Me ensinaram a escrever,
pelo menos o suficiente para enganar a mim e os outros.

Talvez eu não minta, talvez seja verdade
e eu seja poeta, menino e escritor.
Hum…acho que o vinho subiu à cabeça,
mas, meninos bebem vinho?

A. J. Pereira

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